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M&A e Procurement: O guia de integração

No cenário corporativo atual, as fusões e aquisições (M&A) são alavancas poderosas de crescimento, mas o sucesso real não é decidido na mesa de negociação, e sim na execução da integração. De fato, a área de compras surge como a protagonista silenciosa capaz de determinar se a nova entidade alcançará as sinergias prometidas ou se perderá em redundâncias custosas.

Dessa maneira, entender o papel estratégico de suprimentos durante a transição é o que diferencia diretores de alta performance de gestores comuns. Este artigo detalha o passo a passo para integrar cadeias de suprimentos com foco em eficiência, mitigação de riscos e captura de valor.


O papel estratégico de compras no M&A

Primordialmente, é necessário reconhecer que o departamento de compras é o maior gerador de “quick wins” (ganhos rápidos) em uma fusão. Enquanto outras áreas levam anos para integrar sistemas culturais, a renegociação de contratos baseada no novo volume consolidado pode gerar economias imediatas no balanço patrimonial.

Consequentemente, o envolvimento precoce do CPO (Chief Procurement Officer) na fase de due diligence é vital para identificar passivos ocultos e oportunidades de escala. Quando suprimentos é deixado de fora até o “Dia 1”, a empresa corre o risco de herdar contratos rígidos que bloqueiam a agilidade necessária para a nova operação.


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Curso compradores Estratégias de negociação e “posicionamento”

Fase de planejamento e due diligence

Antes de mais nada, a análise detalhada da base de fornecedores de ambas as empresas deve ser a prioridade absoluta. Isso envolve cruzar dados para identificar fornecedores em comum, comparar tabelas de preços e avaliar quais termos contratuais são mais vantajosos para a entidade combinada.

Adicionalmente, os gestores precisam mapear os riscos de concentração, pois depender excessivamente de um único parceiro após a fusão pode criar uma vulnerabilidade perigosa. Uma análise SWOT (Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças) específica para a cadeia de suprimentos deve ser elaborada antes mesmo do fechamento do negócio.

O dia 1: estabilização da operação

Simultaneamente ao anúncio oficial, a equipe de compras deve garantir que não haja interrupção no fornecimento de itens críticos. A prioridade máxima no “Dia 1” é a continuidade operacional, assegurando que os fornecedores entendam as novas instruções de faturamento e os fluxos de aprovação.

Apesar de a pressão por cortes de custos ser alta, agir com pressa excessiva pode alienar parceiros estratégicos essenciais para a inovação. Portanto, uma comunicação transparente com o mercado fornecedor é o primeiro passo para manter a confiança e evitar que a incerteza prejudique os prazos de entrega.

Captura de sinergias e economia de escala

Posteriormente, o foco muda para a consolidação de gastos, onde o verdadeiro poder de negociação se manifesta. Ao unir os volumes de compra, a nova empresa ganha uma alavancagem sem precedentes para exigir melhores condições comerciais, prazos de pagamento estendidos e níveis de serviço (SLAs) superiores.

Entretanto, a integração não se resume apenas a preço; trata-se de otimizar a logística e os processos. Reduzir o número total de fornecedores (rationalization) simplifica a gestão administrativa e permite que a equipe de suprimentos se concentre em relacionamentos que realmente movem o ponteiro dos resultados.

Integração de sistemas e tecnologias e-procurement

Com o intuito de sustentar esses ganhos, a unificação tecnológica torna-se indispensável. Operar com dois sistemas ERP diferentes por muito tempo cria silos de informação que impedem uma visão holística do Spend Analysis (análise de gastos).

Sob o mesmo ponto de vista, a implementação de ferramentas de IA e automação pode acelerar a migração de dados e a padronização de cadastros de materiais. Uma base de dados limpa e integrada é a fundação para qualquer estratégia de compras orientada por dados (data-driven) no ambiente pós-fusão.

Gestão de pessoas e cultura organizacional

Inesperadamente, o maior obstáculo para uma integração bem-sucedida costuma ser a resistência cultural, não os processos técnicos. Profissionais de compras de empresas diferentes possuem métodos distintos de negociação e níveis variados de tolerância ao risco.

Logo, é fundamental criar uma estrutura organizacional clara, definindo novos papéis e responsabilidades para evitar a sobreposição de funções. Investir em programas de treinamento e workshops de alinhamento garante que o time de suprimentos fale a mesma língua e trabalhe em direção aos mesmos KPIs (indicadores de desempenho).

Mitigação de riscos e compliance

Sobretudo em mercados globais, a integração exige uma revisão rigorosa das políticas de compliance e sustentabilidade (ESG). Uma das empresas pode ter padrões éticos mais rigorosos que a outra, e a entidade resultante deve sempre adotar o padrão mais elevado para proteger a reputação da marca.

De modo análogo, as auditorias de fornecedores devem ser intensificadas durante os primeiros meses de integração. Garantir que todos os parceiros cumpram as cláusulas anticorrupção e de responsabilidade socioambiental evita surpresas desagradáveis que poderiam desvalorizar o valor da fusão perante os acionistas.

Otimização da malha logística

Em virtude da nova capilaridade geográfica, a revisão da malha logística oferece oportunidades de ouro para reduzir o frete e o tempo de entrega (lead time). Às vezes, o centro de distribuição da Empresa A está melhor posicionado para atender os clientes da Empresa B, gerando uma eficiência operacional imediata.

Para que isso funcione, é necessário um estudo de modelagem de rede que considere não apenas o custo de transporte, mas também os impostos interestaduais e a disponibilidade de infraestrutura. A integração física da cadeia é o que dá tangibilidade aos benefícios teóricos discutidos durante a negociação do M&A.

Relacionamento com fornecedores estratégicos

Igualmente importante é a reavaliação do SRM (Supplier Relationship Management). Alguns fornecedores que eram “pequenos” para uma das empresas podem se tornar críticos para o grupo consolidado, exigindo um novo modelo de governança.

A fim de extrair inovação, a empresa deve convidar esses parceiros-chave para sessões de cocriação. O objetivo é transformar a relação puramente transacional em uma parceria estratégica que gere valor além do desconto, focando em melhoria de processos e desenvolvimento de novos produtos.

Mensuração de resultados e kpis pós-fusão

Afinal, o que não é medido não é gerenciado. É crucial estabelecer um dashboard de integração que acompanhe métricas como economia total alcançada (total cost of ownership), redução do número de SKUs e o percentual de contratos renegociados.

Além disso, o monitoramento contínuo permite ajustes rápidos de rota caso as sinergias previstas não estejam se materializando conforme o esperado. A transparência nos relatórios fortalece a confiança da diretoria e reforça o valor estratégico da área de suprimentos para o sucesso do negócio.

Tendências futuras em m&a e procurement

Por fim, o futuro da integração em M&A aponta para o uso intensivo de Blockchain e contratos inteligentes para automatizar a confiança entre as partes. A digitalização total da jornada de compras permitirá que integrações futuras ocorram em semanas, não mais em meses ou anos.

Pelo contrário, as empresas que ignorarem a necessidade de uma infraestrutura digital robusta ficarão para trás, perdendo competitividade em um mercado que exige cada vez mais agilidade. O profissional de suprimentos do futuro deve ser, acima de tudo, um gestor de dados e um mestre em gestão de mudanças.


Conclusão

A integração de cadeias de suprimentos em processos de M&A é uma tarefa hercúlea, mas é onde o valor real da transação é extraído. Ao focar na consolidação de gastos, unificação de sistemas e, principalmente, no alinhamento das pessoas, a área de Procurement deixa de ser um centro de custo para se tornar um motor de rentabilidade.

A chave do sucesso reside na preparação antecipada e na execução disciplinada. Se você deseja que sua empresa não apenas sobreviva a uma fusão, mas prospere nela, trate a gestão de suprimentos como o pilar central da sua estratégia de integração.


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