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CPO 2026: Do custo à resiliência de valor

Atualmente, o cenário global de suprimentos não permite mais o luxo da simplicidade. Se você é um CPO, analista ou diretor de compras, já percebeu que as regras do jogo mudaram drasticamente nos últimos 24 meses. Em 2026, a pergunta que ecoa nas salas de diretoria não é mais “Quanto economizamos?”, mas sim “Quão protegidos e adaptáveis nós somos?”.

Historicamente, o sucesso em compras era medido por uma única métrica: o savings. Conseguir um desconto de 5% em uma matéria-prima crítica era motivo de celebração. No entanto, as crises sucessivas — desde gargalos logísticos globais até tensões geopolíticas inesperadas — provaram que o menor custo muitas vezes esconde o maior risco.

O fim da ditadura do menor preço

Primeiramente, precisamos entender que o foco exclusivo na redução de custos criou cadeias de suprimentos extremamente frágeis. Durante décadas, a busca pela eficiência máxima eliminou qualquer “gordura” dos processos, deixando as empresas sem margem de manobra quando o inesperado acontecia. Em 2026, essa abordagem é vista como uma negligência estratégica.

Simultaneamente, o mercado amadureceu para compreender que o “preço de prateleira” é apenas a ponta do iceberg. O conceito de Custo Total de Propriedade (TCO) evoluiu para o que chamamos agora de Valor Total de Entrega. Sob essa ótica, um fornecedor que custa 10% a mais, mas garante 100% de disponibilidade em tempos de crise, é infinitamente mais valioso do que a opção mais barata que pode falhar a qualquer momento.

Inegavelmente, a volatilidade tornou-se a única constante. Não estamos mais em um ciclo de crises esporádicas; vivemos em um estado de disrupção permanente. Por esse motivo, o CPO moderno precisa atuar como um gestor de riscos e um arquiteto de valor, não apenas como um negociador de contratos.


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O que realmente significa resiliência de valor

Basicamente, a resiliência de valor é a capacidade de uma organização de manter sua entrega de resultados financeiros e operacionais, independentemente das oscilações do mercado externo. Ela vai além da simples sobrevivência; trata-se de criar uma vantagem competitiva através da robustez da cadeia de suprimentos.

Adicionalmente, esse novo paradigma exige uma mudança na forma como enxergamos os fornecedores. Eles deixaram de ser meros “vendedores” para se tornarem parceiros estratégicos de inovação. Quando você foca na resiliência, você investe na saúde financeira e na capacidade tecnológica de quem te abastece, garantindo que ambos prosperem diante de incertezas.

Curiosamente, a resiliência de valor também impacta diretamente a reputação da marca. Em 2026, uma quebra na cadeia de suprimentos não é apenas um prejuízo contábil; é um dano à confiança do consumidor que pode levar anos para ser reparado. Portanto, garantir que o produto chegue ao cliente final, com qualidade e ética, tornou-se a métrica suprema de sucesso.

Inteligência artificial como bússola estratégica

De fato, não podemos falar de 2026 sem mencionar a Inteligência Artificial Genética e Preditiva. Se antes usávamos planilhas para olhar o passado, hoje usamos algoritmos para prever o futuro. A IA não serve apenas para automatizar o procure-to-pay, mas para realizar simulações de cenários em tempo real (Digital Twins).

Consequentemente, o papel dos analistas e especialistas mudou. Em vez de gastarem horas compilando dados de gastos, eles agora interpretam insights gerados por máquinas para tomar decisões proativas. Imagine ser avisado por um sistema sobre uma possível greve portuária na Ásia três semanas antes dela acontecer, permitindo o redirecionamento imediato de cargas.

Além do mais, a IA permite uma visibilidade granular de níveis 2 e 3 da cadeia de suprimentos. Muitas empresas descobrem, tarde demais, que seus fornecedores diretos dependem todos de uma única fonte vulnerável. Com a tecnologia atual, essa transparência é automática, permitindo a diversificação antes que o problema se materialize.

ESG: o novo motor de lucratividade silenciosa

Notavelmente, o ESG (Environmental, Social, and Governance) deixou de ser um departamento de “boas intenções” para se tornar uma exigência de conformidade e lucro. Em 2026, a pegada de carbono de um produto é um componente direto do seu valor de mercado. Empresas que não conseguem rastrear suas emissões de Escopo 3 estão perdendo contratos bilionários.

Sob essa perspectiva, a sustentabilidade tornou-se um sinônimo de eficiência. Reduzir o desperdício, otimizar rotas logísticas para queimar menos combustível e escolher materiais recicláveis são ações que protegem o planeta e, ao mesmo tempo, reduzem custos operacionais a longo prazo. É o que chamamos de “lucratividade consciente”.

Incontestavelmente, os diretores de compras agora são os principais guardiões da ética corporativa. Como a maior parte do impacto ambiental e social de uma empresa ocorre na sua base de fornecedores, o CPO tem mais poder para mudar o mundo do que quase qualquer outro executivo. Essa responsabilidade exige auditorias rigorosas e uma colaboração estreita com parceiros globais.

Geopolítica e a regionalização do suprimento

Fundamentalmente, o mapa do comércio global foi redesenhado. O movimento de nearshoring e friendshoring — trazer a produção para mais perto ou para países aliados — consolidou-se como a estratégia padrão. O objetivo é encurtar as cadeias de suprimentos para reduzir a exposição a riscos geopolíticos e custos de frete voláteis.

Contrariamente ao que se pensava no início da globalização, a centralização da produção em um único polo (como a China) mostrou-se perigosa. Em 2026, a diversificação geográfica é a regra de ouro. Ter fontes de suprimento na América Latina, Europa Oriental e Sudeste Asiático permite que a empresa “desligue” um nó da rede sem paralisar a operação total.

Paralelamente, essa regionalização exige que os gerentes de suprimentos possuam um conhecimento profundo de regulamentações locais e incentivos fiscais. O CPO de 2026 precisa ser, em parte, um diplomata e, em parte, um macroeconomista, entendendo como uma mudança na política tarifária de um país afetará o EBITDA da sua empresa no próximo trimestre.

Novos KPIs para uma nova era

Claramente, se o foco mudou, as métricas de desempenho também precisam evoluir. O antigo painel focado apenas em savings e prazo de pagamento foi substituído por indicadores mais holísticos e voltados para o futuro.

Aqui estão os novos KPIs que definem a liderança em compras em 2026:

  • Pontuação de Resiliência do Fornecedor: Uma medida da capacidade do parceiro de absorver choques.

  • Tempo de Recuperação (TTR): Quanto tempo a cadeia leva para voltar ao normal após uma disrupção.

  • Índice de Inovação de Fornecedores: Qual percentual da receita vinda de novos produtos foi gerado por ideias dos parceiros.

  • Custo Total de Risco: O valor financeiro da exposição a possíveis falhas na cadeia.

  • Transparência de Escopo 3: O percentual da base de fornecedores com dados de emissão validados em tempo real.

Dessa forma, a conversa com o CFO torna-se muito mais estratégica. Em vez de justificar por que o custo subiu, o CPO demonstra como o investimento em resiliência evitou perdas potenciais de milhões de dólares durante o último ano.

Como liderar a transformação na sua empresa

Certamente, você pode estar se perguntando: por onde começar? A transição da redução de custos para a resiliência de valor não acontece da noite para o dia. Ela exige uma mudança de cultura, processos e, acima de tudo, de mentalidade.

Primeiramente, audite sua tecnologia. Se você ainda depende de processos manuais e dados isolados, sua empresa está vulnerável. Invista em plataformas que ofereçam visibilidade de ponta a ponta e integração real com seus fornecedores. A informação em tempo real é a sua melhor defesa.

Subsequentemente, renegocie seus relacionamentos. Saia da postura de “adversário” nas negociações e passe para uma de “co-criador”. Pergunte aos seus fornecedores como vocês podem reduzir riscos juntos. Muitas vezes, eles têm insights preciosos sobre o mercado que você ainda não percebeu.

Finalmente, capacite sua equipe. O perfil do profissional de compras mudou. Eles precisam ser ágeis, entender de análise de dados e ter uma visão sistêmica do negócio. O treinamento contínuo em novas ferramentas e metodologias é o que separará os departamentos de alto desempenho dos que apenas reagem a problemas.


Conclusão

Em resumo, o CPO de 2026 não é mais o “homem do não” ou o negociador implacável que espreme cada centavo dos fornecedores. Ele evoluiu para se tornar o arquiteto-chefe da continuidade do negócio. O foco na resiliência de valor não significa ignorar os custos, mas sim entendê-los dentro de um contexto muito mais amplo e estratégico.

No final das contas, a eficiência sem resiliência é apenas um convite para o desastre. As empresas que prosperam hoje são aquelas que entenderam que a segurança do suprimento e a agilidade operativa são os verdadeiros pilares do lucro sustentável. Se você quer garantir que sua organização seja relevante nos próximos dez anos, o momento de mudar sua bússola estratégica é agora.


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